Pensar ou Roubar Como Um Artista?
Existem dois livros sobre criatividade com títulos parecidos; mensagens, aparentemente, complementares; publicados em períodos muito próximos um do outro; porém de autores de lados distintos do Oceano Atlântico: um é Roube como um artista (2013), do estadunidense Austin Kleon; e o outro, Pense como um artista (2015), do britânico Will Gompertz.
Conheça um pouco de cada título e descubra o que eles têm em comum e no que se diferem.
Roube como um artista (Steal Like an Artist)
Austin Kleon define a si mesmo como "Um escritor que desenha". Neste que é o seu primeiro livro sobre o assunto e bestseller no New York Times, ele usa uma linguagem pragmática para desmistificar a ideia de que nada é original e oferece dicas sobre como nos tornarmos mais criativos, usando uma série de artistas como referência.
"Você é a soma das suas influências... um mashup do que escolhe deixar entrar na sua vida."
Um exemplo bem interessante que encontrei neste livro é a ideia de criarmos uma árvore genealógica. O escritor propõe este exercício:
"Mastigue um pensador — escritor, artista, ativista, alguém exemplar — que você realmente ame. Estude tudo que há para conhecer sobre esse pensador. Em seguida, encontre três pessoas que esse pensador amou e descubra tudo sobre elas… Vá subindo na árvore o mais alto possível. Uma vez montada sua árvore, é hora de brotar o seu próprio galho."
Ou seja, com uma ampla gama de ideias obtidas através da análise dos pensamentos dos nossos ídolos e dos artistas preferidos deles, nós refletimos sobre o assunto e começamos a criar o nosso próprio estilo e repertório. Não se trata de plágio, mas de inspiração que nos ajudará a devolver algo novo para o mundo.
Austin Kleon também chama a atenção para a necessidade de disciplina durante o processo de criação. Ser chato nesse ponto é a única forma de terminar um trabalho.
Pense como um artista (Think Like an Artist)
Will Gompertz se apresenta como editor, produtor, escritor, locutor e jornalista. Ele trabalhou como editor de arte da BBC (onde teve contato com cineastas, escritores, músicos, atores e atrizes, entre outros) e como diretor da Tate (Britain|Modern), onde analisou obras de artes de diversos períodos.
Este escritor defende que a criatividade não é um dom exclusivo de poucos privilegiados, mas uma habilidade que pode ser aprendida e aplicada por todos, em qualquer área da vida.
Pessoalmente, gostei da parte em que o autor explica que artistas foram e continuam sendo empreendedores, pois sabem como transformar suas ideias em algo que o mercado queira adquirir.
"Eles precisam ter uma sensibilidade aguçada para marketing e uma compreensão implícita da marca … Afinal, seu negócio é fornecer produtos sem função ou propósito real para uma clientela rica; clientes que valorizam a distinção da marca acima de tudo."
O escritor deu o exemplo de Andy Warhol, que gostava tanto do assunto que não só o transformou numa obra de arte — exemplo: Dollar Sign (1981) — como chamou seu ambiente de trabalho de Factory (Fábrica, em português).
Logo, aquele mito de que artistas não pensam ou falam sobre dinheiro é isso mesmo: um mito! E por que os artistas fazem isso? Porque o lucro compra liberdade, que compra tempo, que é o bem mais valioso para um artista (ouso dizer, para muitos de nós, nos dias de hoje).
Comparação entre os livros e autores
Os dois escritores orientam o leitor sobre como ser mais criativo e usar esse talento em coisas práticas. Eles defendem que a criatividade é acessível a todos e que o fracasso deve ser visto como parte natural do processo de aprendizagem e aplicação das novas ideias.
Em relação ao público-alvo, Austin Kleon foca nos criadores, como escritores e designers, que desejam desbloquear a criatividade e fugir do mito de que toda ideia precisa ser original. Já Gompertz se comunica com profissionais de todas as áreas, interessados em usar os princípios artísticos em suas vidas e carreiras.
Bons artistas copiam; grandes artistas roubam. (Pablo Picasso)
Ambos autores defendem que artistas roubam (Kleon, no livro inteiro; Gompertz, no quarto capítulo) e usam Pablo Picasso como referência. Mas eles diferem no método como passam esse ensinamento adiante: Gompertz foca na observação da criação artística para uso pessoal, ao passo que Kleon foca na recombinação de ideias para criação de algo novo.
Ambos buscaram exemplos em outros artistas, de diferentes épocas e nacionalidades, para ilustrarem seus pensamentos. O americano apresentou ideias dos escritores T. S. Eliot e Mark Twain, do músico Arthur Russell, da cantora Patti Smith e do apresentador David Letterman, entre muitos outros; ao passo que o britânico citou os pintores Caravaggio e Andy Warhol, o artista de instalações Theaster Gates, o grupo cômico Monty Python e o publicitário David Ogilvy, só para mencionar cinco nomes.
Concluindo
Se você, leitor deste post, gostou da ideia de entender como os artistas pensam e como pode aplicar isso em sua vida, leia Gompertz. Por outro lado, se você busca ferramentas práticas para começar a criar sua arte ou o que quer que você esteja trabalhando agora, leia Kleon.
Na dúvida, faça como eu fiz: leia ambos! É bem provável que você termine as leituras com uma recombinação de ideias muito boas para colocar em prática.
Ah! E se gostar dos livros, já coloca os autores na sua árvore genealógica criativa 😉.

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